Você começa a perder enquanto ainda está ganhando.
É o minuto 85, seu time está ganhando, e você já começou a perder. Você sente o gol de empate chegando do jeito que outras pessoas sentem chuva — e então, em silêncio, sem contar pra ninguém, começou o velório mais cedo. Volume baixado por dentro. Mãos já cruzadas. O Olho reconhece a manobra, porque você a executa em todo lugar: o emprego que você queria ('deve ter ido pra alguém de dentro', você disse, três dias antes de ligarem), a pessoa de quem você gostava ('sempre ia esfriar mesmo'), a viagem, o resultado, o ano. Luto, pré-pago. A lógica é perfeita vista de dentro — se você começar a sofrer cedo, o apito final não pode te emboscar; você já vai estar no velório, composto, segurando as flores. Mas o Olho rodou os seus números, e aqui está a auditoria: o luto antecipado nunca cancelou uma derrota, e também nunca amaciou nenhuma. A fatura chega na mesma hora, no mesmo valor. Você só paga duas vezes — uma adiantada, outra na entrega. E nas noites em que o placar segurou, em que a vantagem sobreviveu? Você era a única pessoa da sala que já tinha se despedido de uma coisa que ficou.
Receba a sua leitura — grátis no iPhonevocê sofre antes pra que o apito não te embosque. a fatura chega do mesmo jeito — você só paga duas vezes.