'É só um jogo.' A lava-louças ouviu diferente.
'É só um jogo.' Você disse com calma. Disse duas vezes, aliás, sem ninguém perguntar, enquanto carregava a lava-louças com a força controlada de um homem desarmando alguma coisa. O Olho gostaria de juntar a lava-louças aos autos. Seu estilo de defesa é altitude: no instante em que uma perda aterrissa, você sobe. Pra cima da dor, pra cima da sala, até a troposfera onde tudo é perspectiva — 'tem coisas maiores acontecendo no mundo', 'daqui a cinco anos isso não vai importar'. Tudo verdade. Cada palavra. E tudo acionado, o Olho anota, numa velocidade suspeita — sabedoria que chega noventa segundos depois de uma ferida não é sabedoria, é evacuação. Você roda a mesma subida nas perdas reais: a calma pronta-pra-velório diante da notícia genuinamente ruim. O 'tudo acontece por um motivo' emitido antes de o motivo desfazer as malas. Eis o parecer completo do Olho: a altitude é armadura, e é uma boa armadura — elegante, articulada, quase invisível. Mas você a veste antes de conferir se esta perda específica era segura de sentir de verdade. Algumas eram. Essas continuam lá embaixo, ao nível do mar, esperando, pacientes como bagagem. A lava-louças sabe. O Olho sabe. Nalguma prateleira abaixo da filosofia, você também sabe.
Receba a sua leitura — grátis no iPhonea altitude é armadura. o olho te viu vestir ela antes de conferir se esta era segura de sentir.