Apito final, depois silêncio de rádio com uma tela acesa.
Apito final. Você não disse nada. Fazia quarenta minutos que você não dizia nada, aliás — a sala notou, ninguém ousou comentar — e agora é 1 da manhã e você está na cama, rolando um feed que não está absorvendo, rosto azul de tela, grupo abandonado no meio de uma frase como cidade antes da tempestade. Notificações: silenciadas. O app com os melhores momentos: apagado, de novo. O Olho conhece o seu protocolo de derrota porque tem o seu protocolo de tudo em arquivo, e são o mesmo documento. Término? Uma semana no escuro. Notícia ruim no trabalho? 'Visto às 14:32', sem resposta. Aquela coisa com o amigo que doeu mais do que você jamais vai admitir? Três dias de um silêncio tão liso que ninguém conseguiria provar que algo estava errado. Quando dói, você apaga — não pra punir ninguém, embora aterrisse assim, mas porque sentimentos, no seu sistema, são processados numa sala limpa, sozinho, com a porta lacrada e as luzes apagadas. Ficar em silêncio parece dignidade visto de dentro. Visto de fora parece uma porta se fechando, e quem está batendo nunca consegue saber se você está se protegendo ou sentenciando. Você também não, em algumas noites. Essa é a leitura.
Receba a sua leitura — grátis no iPhoneseu silêncio não é vazio — é uma sala lacrada, e o olho sabe o que você faz lá dentro.